terça-feira, 24 de março de 2009

De repente, sobre a poltrona.


Aqui em NY as pessoas jogam coisa nova no lixo. E a rua transforma o significado das coisas, móveis, eletrodomésticos, obras de arte...

O que importa, na verdade, é que a família voltava de um encontrão daqueles com primos e tios que você não vê durante anos.

Na rua pela qual eles andavam tinha uma poltrona vermelha. Era daquelas de casa, mas tava na calçada, no lixo. Nova, aparentemente inutilizada.

Os pais estavam felizes; o filho, de mau-humor.

A discussão começa quando o menino, impaciente das piadas de poltrona, fala mal da avó, reclama da comida, zomba da tia.

Grito pra lá, cala-a-boca pra cá, e a mãe se sentiu desrespeitada.
O filho não entende, não escuta, não se rende.

O pai, de repente, sentado na poltrona vermelha (presente do lixo, naquela cidade regada a pedestres e buzinas), sente o coração ficando bem pequenininho dentro do peito.

Ele se apóia no braço direito, e uma tristeza profunda, desperta e viva dentro daquele momento banal, salta-lhe dos olhos como que a traduzir o drama familiar.


Por Anita Petry

Um comentário:

  1. Ah, se a gente ficar atento dá pra ver váários desses momentos simples de tristeza profunda por aí, né?

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